O mar tem o poder de transformar histórias. Para alguns, ele representa aventura. Para outros, aprendizado. Para Maria Beatriz, conhecida por muitos como Bibi, o mar representa tudo isso e também superação.
Velejadora apaixonada e entusiasta da construção naval artesanal, Maria encontrou na vela muito mais do que um hobby: encontrou um propósito, uma comunidade e um estilo de vida.
Agora, ela inicia um novo capítulo dessa jornada com a construção de seu segundo veleiro.

Como começou a paixão pela vela
Maria cresceu sempre próxima da água. Desde pequena, mergulho, surf e atividades ligadas ao mar faziam parte da sua rotina. Mas foi em 2021, aos 15 anos, que sua relação com o universo náutico tomou um novo rumo.
Foi ao entrar no Paiol, projeto da Associação Náutica de Itajaí (ANI), que ela descobriu o mundo da vela e da construção de barcos.
Ali nasceu seu primeiro barco: Albacora, um pequeno veleiro de 3,5 metros, construído com as próprias mãos.
Mais do que um projeto, o barco se tornou parte de sua história. Com ele, Maria aprendeu a velejar, participou de aulas, conheceu novas pessoas e mergulhou ainda mais fundo na cultura náutica.

Um momento difícil no mar
Em setembro de 2025, durante um tempo ruim na região, Maria viveu um dos momentos mais difíceis de sua trajetória: um acidente que resultou na perda do barco Albacora e de um amigo muito próximo que estava a bordo.
A dor daquele momento fez com que ela rejeitasse completamente a ideia de construir outro barco.
“Naquele momento eu achei que essa história tinha acabado”, conta.
Mas, com o passar do tempo, veio a reflexão e também a vontade de recomeçar.
Um novo barco, um novo propósito
O novo projeto não surgiu para substituir o que foi perdido, mas para abrir um novo caminho.
Maria decidiu construir um segundo veleiro, mas dessa vez de uma forma diferente: documentando todo o processo e convidando outras pessoas para fazer parte da jornada.
“Agora eu quero levar todo mundo comigo nessa construção, como parte da tripulação.”
Além da construção, Maria compartilha sua rotina nas redes sociais, mostrando velejadas, aprendizados e até os desafios que fazem parte da vida no mar.

O projeto Paiol: onde nascem novos velejadores
A construção acontece no Paiol, um projeto de construção naval amadora da Associação Náutica de Itajaí (ANI).
O programa acontece todos os anos e ensina participantes a construir o próprio barco, o Ibis Rubra 3.5, um pequeno veleiro monotipo voltado para aprendizado e navegação em embarcações leves.
O curso começa em março e vai até dezembro. Durante esse período, os participantes contam com a orientação de quatro instrutores, mas quem realmente constrói o barco é o próprio aluno.
Todos os anos, oito barcos são construídos e lançados na água juntos, em um momento simbólico que marca o encerramento do projeto.
Ao longo dos anos, o Paiol já ajudou a construir mais de 127 barcos, que hoje velejam por diferentes regiões do Brasil.
Construção artesanal e aprendizado técnico
O novo barco de Maria está sendo construído em compensado naval, utilizando um método artesanal muito utilizado em pequenas embarcações.
Grande parte da estrutura é montada com resina epóxi, praticamente sem o uso de parafusos.
Um dos processos mais interessantes é a mistura da resina com o pó da própria madeira, formando uma espécie de massa muitas vezes chamada de “pirão” que une as peças do barco com grande resistência.
Depois disso, toda a estrutura recebe acabamento com resina para impermeabilização e durabilidade.
Mais do que apenas construir um barco, o projeto permite compreender cada detalhe da embarcação.
“Quero entender cada peça, cada etapa e compartilhar isso com outras pessoas.”

Um projeto construído por muitas mãos
Apesar de ser o barco de Maria, a ideia nunca foi construir sozinha.
O projeto nasceu com um espírito coletivo: amigos, parceiros e seguidores são constantemente convidados a participar da construção e colocar a mão na massa.
“Quero que as pessoas façam parte disso comigo. Que sintam que também ajudaram a construir esse barco.”
Essa participação coletiva transforma o projeto em algo ainda maior: uma forma de aproximar mais pessoas do universo da vela.
Apoio que fortalece o projeto
Projetos como esse também dependem de parceiros que acreditam na iniciativa.
A Catarina Náutica é uma das empresas que apoiam e incentivam a construção do novo veleiro de Maria, juntamente com a Nauticola e a Conline.
Para esta primeira fase da construção, foram doadas unidades do REL 31, adesivo de laminação epóxi da Nauticola, com seus componentes A + B, essenciais para a colagem estrutural das peças do barco.
A parceria continuará ao longo do projeto, com novas doações e suporte técnico para garantir que a construção avance com qualidade e segurança.
Para Roberto Deschamps, diretor da Catarina Náutica, apoiar iniciativas como essa é uma forma de fortalecer o futuro da náutica.
“Projetos como o do Paiol mostram como a náutica pode ser acessível, educativa e transformadora. Para nós da Catarina Náutica é uma satisfação apoiar jovens apaixonados pelo mar e incentivar a construção naval amadora, que forma novos navegadores e mantém viva a cultura náutica.”

Muito mais do que um barco
A construção desse novo veleiro vai muito além de ter uma nova embarcação.
É sobre aprendizado, superação e compartilhar conhecimento.
Maria espera que, ao final do ano, o barco esteja pronto para ir para a água. E quando isso acontecer, ele não será apenas mais um veleiro.
Ele será usado para velejar, participar de eventos, ensinar outras pessoas e continuar contando uma história que começou com curiosidade, vontade de aprender e amor pelo mar.
E quem sabe, no futuro, essa jornada leve Maria ainda mais longe talvez até para uma volta ao mundo.
Uma história que continua sendo escrita
Histórias como a de Maria mostram que o universo náutico é feito de pessoas, desafios e recomeços.
Cada barco construído carrega muito mais do que madeira, resina e velas. Carrega sonhos.
E esse novo veleiro promete navegar por muitas histórias ainda.